Retrato de uma noite em “A Pergunta Sem resposta” de José Miguel Júdice

   

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No dia 30 de janeiro, o programa Jornal da Noite, da SIC, trouxe à luz uma série de problemáticas urgentes e alarmantes que estão a afetar profundamente o cenário educacional em Portugal. Entre os destaques, chocantes revelações apontam para uma realidade preocupante: “mais de 1000 alunos, desde o início do ano letivo, estão sem um professor em, pelo menos, uma disciplina”.

Além deste quadro desolador, o noticiário também despoletou um sentimento de revolta nos telespectadores face a um caso perturbador de violência e abuso sexual, envolvendo alunos de um Agrupamento de Escolas de Vimioso. O desfecho desse episódio resultou na suspensão desses estudantes por quatro dias, deixando a comunidade escolar em estado de perplexidade e gerando uma reflexão profunda sobre o futuro da Educação.

Outra notícia apresentada foi a indignação de pais de uma escola, em relação às precárias condições físicas das escolas, que colocam em risco a saúde e o bem-estar de crianças e jovens. A falta de condições físicas seguras torna-se motivo de apreensão, com os progenitores a alertarem para os riscos que os estados das mesmas podem representar para a comunidade estudantil.

A tensão atinge o seu ápice com um protesto de pais e funcionários em Queluz, que exigem a contrat­ação urgente de mais funcionários para suprir as demandas crescentes do sistema educacional. Esta manifestação é um grito coletivo em busca de soluções imediatas para as lacunas que comprometem o desenvolvimento e a qualidade do ensino.

Num só dia, apontaram-se sérios problemas ao panorama das escolas do nosso país e a “cereja no topo do bolo” culminou com uma análise de José Miguel Júdice, no seu espaço mediático semanal “As Causas”, na SIC, com Clara de Sousa, em “A Pergunta Sem Resposta”. 

O estudo divulgado sobre “O Absentismo dos Professores” apoiado pela Fundação Belmiro de Azevedo despoletou capas de jornais com manchetes:

 “11 mil professores faltam, em média e por dia, às aulas e que 80% das faltas se devem a 12 mil professores”. 

O ex-bastonário da Ordem dos Advogados e ex-libris das grandes sociedades de advogados, o ilustre Dr. José Miguel Júdice, de cima do seu pedestal, invoca a evolução notável da saúde do país, comparando-a com o do regime salazarista.

Num olhar específico para a classe docente entre os anos 1955 e 1966, constata que, à época, os professores desfrutavam de uma saúde, aparentemente mais robusta, do que a observada nos dias atuais! Di-lo sarcasticamente, acrescentando na plenitude da sua perspicácia intelectual, uma provocação irónica:

 “Não será melhor procurar outra justificação que não sejam as doenças?!!! Deixo a pergunta!”

A ironia espelhada na face do ex-bastonário continua ao rubro, enquanto a jornalista Clara de Sousa questiona, sobre a subtil insinuação da referência a baixas fraudulentas, para as causas do absentismo. Responde de imediato, realçando que na sua opinião singela não pretende desferir culpas, mas constatar que a saúde dos professores, no tempo de Salazar, era bem superior e por isso, não adoeciam! 

O ar de regozijo continua estampado nas suas feições e perante a afirmação da jornalista, lembrando-o que a comunidade escolar se transformou nestes últimos anos, o ilustre comentador suspira, arrastando a voz:

 “Ai, Meu Deus!  Ai, meu Deus!”

Em suma, e não mais importante, apenas saliento que já não bastava viver de perto todos os problemas de que a escola padece e sentir uma revolta interior pelo quanto temos feito em prol da mesma, ainda temos comentadores que “analisam” estudos de forma superficial e leviana, e consubstanciam a sua visão pessoal perante esta classe profissional.

Algures, um dia, José Miguel Júdice afirmou que “os professores são uma raça … muito excecional… são pessoas diferentes do resto da humanidade”.

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