Foram meses de forte contestação social, com as ruas ocupadas por milhares de pessoas em protesto por melhores condições de vida e de trabalho. Durante esta intensa agitação social, e apesar dos ânimos mais ou menos exaltados, das inúmeras arreliações ministeriais e outros tantos alaridos mediáticos, nenhum governante foi molestado, raptado ou impedido de sair do seu gabinete. 

As greves, convocadas por diversos sindicatos, foram cumpridas e respeitadas por todos, até pelos fura-greves, sem sublevações e (ou) rebeldias espontâneas. Abençoadas sejam a ordem e o respeito dominantes, parabéns a todos os envolvidos. 

Perante este quadro de normalidade reivindicativa, num cenário de disfarçada paz social, quando todas as forças pareciam domadas, eis que numa ensolarada manhã de novembro, o Primeiro-Ministro comunica ao país a sua demissão. A surpresa foi tal que, logo nas primeiras horas, muitos portugueses não perceberam o que havia motivado a radical e implacável decisão de António Costa. 

Com a devida distância temporal, com a necessária serenidade emotiva, podemos hoje afirmar que essa repentina decisão de António Costa, representou mais uma das muitas encenações a que nos foi habituando ao longo da sua carreira política. Mais uma intrincada narrativa urdida por António Costa, com duplos objetivos, por um lado agilizar a sua saída do governo e preparar o seu (outro) futuro político, por outro, evitar beliscar a imagem do Partido Socialista. 

Como tem sido seu apanágio, o malabarista Costa, contando com os conselhos e os tentáculos dos seus assessores de comunicação, criou uma narrativa para sustentar os seus interesses pessoais, a qual se transformou num convincente soundbite, rapidamente propalado por todos os importantes OCS – Estamos numa grave crise política, provocada pela devassa da vida privada de membros do governo, práticas ilegais, tráfego de influências, dinheiro escondido em livros e caixas de vinho no gabinete do melhor amigo do primeiro-ministro. Provavelmente, (afirmaram os pivôs televisivos) o mais catastrófico desastre artificial da história recente de Portugal.

nenhum governante foi molestado, raptado ou impedido de sair do seu gabinete. 

Assim que foram apresentadas as razões do distúrbio emocional de António Costa, bem como a direta consequência dos seus atos para o sistema democrático, o tempo das antenas televisivas passou a incidir exclusivamente sobre o tema, preterindo e subalternizando os conflitos armados na Ucrânia e o genocídio em Gaza, silenciando as ações de protesto e reivindicações dos diversos setores de atividade. Os médicos foram esquecidos, os professores ignorados. O poderoso Costa havia criado uma densa e eficaz cortina de fumo, com a qual separou os castelos do povo. Um denso nevoeiro que se instalou sobre as contestações sociais e o tempo de antena em todos os OCS. Por tudo isto, prolfaças a todos os assessores de comunicação do governo pelo serviço prestado à(s) nação(ões). 

Peripécias e facécias à parte, que miserável país este em que vivemos! 

Demite-se todo um governo porque há suspeitas de corrupção, escandalosos relacionamentos de amizade e dinheiro escondido, querelas eróticas em gabinetes de ministros, arremessos de velocípedes e outros engenhos verdes, conversas parvas no WhatsApp enviadas por sujeitos, provavelmente, alcoolizados em festas no Príncipe Real, maconhas escondidas no gavetão das meias e pijamas axadrezados. Um rol de acontecimentos trágico-cómicos semelhantes aos vividos na corte de Luis XIV. E a culpa é dos outros!

Mantém-se um governo incompetente, inoperante e incapaz de resolver os reais problemas na habitação, saúde e educação. Quase dez anos de desastrosa governação que tem levado milhares de cidadãos à desgraça, milhares a manifestarem-se na rua por melhores condições de trabalho, greves intermináveis e escolas fechadas. Milhares de médicos a pedirem escusa de responsabilidade, gerando o caos em centros de saúde e hospitais, filas de espera intermináveis e urgências fechadas. 

O presente caos instalado, em setores chave da sociedade, num qualquer país civilizado levaria a uma inevitável responsabilização dos decisores políticos e governativos, precipitando o a sua inevitável exoneração de funções. Pois neste Portugal miserável, para além das  encenadas reuniões de concertação social e promessas vãs, que nunca tiveram como objetivo resolver os problemas do país, ainda fomos brindados com sorrisos de escárnio dos governantes envolvidos e com a clássica frase, repetida aos microfones das televisões com o objetivo de apaziguar as opiniões públicas – é a democracia a funcionar! 

Vivemos numa democracia consolidada! Gritam os vigilantes do sistema – tut va bien! Regozijam-se. No entanto, a crua e dura realidade é outra.
Esta não é apenas mais uma crise política, é sim uma congénita anomalia social, que necessita de ser urgentemente corrigida. 

Tudo Vai Bem
tut va bien! Regozijam-se. No entanto, a crua e dura realidade é outra.


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